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"Todo sonho é uma derrota em potencial. Para não o realizar, basta manter-se parado. - Argus Caruso Saturnino"

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Estrada do Despraiado

Despraiado - Pedro de Toledo
30/07/2011

A véspera...

Sexta feira inicio da noite, e não tinha nenhum roteiro de pedal para o final de semana, estava pensando em pedalar pela região, pois o único convite que tive, foi do meu amigo Sandro para pedalar de Santos / São Vicente até Iguape, em um único dia, em conjunto com o Adelso e mais dois amigos, seriam aproximadamente 200 km, mas infelizmente não aceitei o convite pelo seguinte motivo:

- Por não me julgar apto neste momento a pedalar essa distância, ainda mais no ritmo que eles pretendiam, algo entre 25 a 30 km/h.

Estava eu de passagem pelo Facebook, quando o Gustavo começou um bate papo, e rapidamente fez o convite para pedalarmos pela Estrada do Despraiado em direção a Iguape. E mais rápido ainda aceitei o convite e combinamos os detalhes do passeio, pois pedalar no Despraiado é um desejo de ambos há alguns anos.

Combinamos nos encontrar em São Vicente próximo a minha casa as 05h da manhã, e seguir de carro até o centro de Pedro de Toledo, onde iniciaríamos o pedal pelo Despraiado e depois pela SP-222 até Iguape, e dependendo do horário decidiríamos a nossa volta a Pedro de Toledo, pedalando ou de ônibus?

Antes disso, ainda na sexta feira a noite tinha um compromisso, era véspera do meu aniversário de casamento e já tinha combinado sair com a minha esposa para comemorar, então não podia cancelar!

O Pedal...

Quando o despertador tocou as 04h 45 min, lá estava eu levantando, todo moído após menos de 4h de sono, mas animado com o pedal que vinha pela frente.

Lavei o rosto, me troquei, peguei minhas coisas e a bike, e fui saindo de casa em direção a uma farmácia próxima ao ponto de encontro, pois como o passeio foi combinado em cima da hora, não tive tempo de preparar um lanche e comprar algum energético, foi quando o Gustavo me ligou confirmando que estava saindo de sua casa em direção ao ponto de encontro.

Minha ida a farmácia foi em vão, pois não encontrei o energético em gel, então fui ao ponto de encontro, após dez minutos o Gustavo chegou, colocamos a minha bike no seu carro e seguimos rumo a Pedro de Toledo...

Na estrada fomos prestando atenção para ver se encontrávamos os nossos amigos Sandro e Adelso que tinham saído as 03h da manhã rumo a Iguape, mas só vimos outros dois ciclistas pedalando no acostamento.

Um pouco antes das 07h 30 min da manhã chegamos a Pedro de Toledo, e iniciamos o pedal próximo à estação rodoviária da cidade, rumo ao Despraiado.

Portal de Pedro de Toledo por volta das 7h 30 min.

Trevo na Rodovia Padre Manoel da Nóbrega.

Inicio do caminho para o Despraiado, com ciclovia e asfalto nos primeiros quilômetros.

E logo no início encontramos uma vendinha aberta, e fizemos uma parada para comprarmos algo para lanchar, o nosso café da manhã antes de iniciarmos o trecho de mais de 40 km por estradinha de terra, que leva novamente ao asfalto, na rodovia SP 222.

Como tinha traçado o percurso no dia anterior no Google Earth, e visualizado um gráfico de altimetria do mesmo, e este dizia que seriam menos 500m de subidas acumuladas no trecho de terra, achei que demoraria no máximo 4h 30 min por esse trecho de terra, e que seria bem tranquilo, então resolvi comprar apenas um iogurte de 500ml, e compraria outro lanche mais para frente quando chegássemos ao asfalto.


Ainda no início surgiram algumas belas paisagens, mesmo com o tempo bem nublado...

E por falar em nublado, a previsão era de chuvas no período da tarde.



Igreja São José, a beira da estrada.

Os primeiros seis quilômetros foram pelo asfalto, que estava um verdadeiro tapete e com belas paisagens, passando por casas e chácaras, cercados por muito verde e com os contornos das serras ao fundo...

E lá se foi o asfalto e finalmente veio a terra...

De início muito plano e em perfeitas condições, muito bom para pedalar...



Ainda mais que as belas paisagens continuavam a aparecer uma atrás da outra.

Ponte sobre o Rio do Peixe (sentido SP 222)

(Sentido Pedro de Toledo)


Rio do Peixe.

Até o local desta foto estava tudo perfeito, lindas paisagens, estrada em perfeitas condições, relevo bem suave, e apesar de estar bem nublado, nenhuma gota de chuva...

Mas logo em seguida vieram as primeiras subidas mais íngremes, e com elas perdi o Gustavo de vista, pois acabei subindo no meu ritmo "devagar e sempre".

E no meio desta primeira subida mais íngreme, parei para bater umas fotos, e ao colocar a perna direita no chão para descer da bicicleta, acabei sentindo cãibra na mesma.

Como o passeio seria longo e provavelmente duraria a manhã e a tarde toda, até esperava que pudesse sentir alguma cãibra, mas no final do mesmo, nunca imaginei que aconteceria na primeira subida e com menos de 20 km de pedal! O que me deixou preocupado sobre a possibilidade de não conseguir completar o pedal.

Após bater as fotos e alongar um pouco a perna, segui pedalando serra a cima, sentindo um pouco de incomodo na perna direita...



Mas com paisagens como essas, o incomodo era o de menos...


E outras subidas iam aparecendo, e com elas o tempo ia ficando cada vez pior, e não demorou para a cerração aumentar.

Placa indicando que estávamos dentro da Estação Ecológica de Juréia-Itatins.

E a cerração acabou virando chuva, o que deixou algumas descidas bem escorregadias, devido à lama...

 E as pedras soltas que começaram a surgir em alguns trechos.

Além do incomodo da perna, e da chuva que veio antes do previsto, no trecho de subidas acabei descobrindo que o meu cambio traseiro estava desregulado, e com isso a corrente chegou a cair entre a catraca maior e os raios.

E não parou por ai, mais adiante o meu ciclo computador parou de funcionar, e logo em seguida a bolsa do selim caiu no chão, ao parar para pega-la descobri que ela caiu, devido à quebra de uma das barras de fixação do selim.
(foto abaixo)

E a chuva aumentou e com isso comecei a ficar encharcado, e a câmera fotográfica também...

Molhando e embaçando a lente dela, tentava seca-la na minha camisa e na bermuda, mas era impossível, pois estava completamente molhado.

Assim cheguei ao local acima, onde o Gustavo já me esperava a um bom tempo...

E estava conversando com um morador da casa ao lado da ponte, ele disse que faltavam 28 km até o asfalto.

Comentei com o Gustavo sobre as coisas que aconteceram comigo neste trecho onde segui sozinho, e os defeitos que ocorreram com a minha bike, reclamei que estava dando tudo errado!!!

E ainda brinquei que não sabia quem ai conseguir resistir até Iguape, se era eu ou a bicicleta?  Pois tive cãibra e sofri um pouco com as subidas do início do passeio, e a bicicleta estava apresentando um problema atrás do outro, e estava se desmontando pelo caminho.

Atravessando a ponte que foi improvisada pelos moradores.


Um lugar belíssimo, uma pena estar chovendo.

Quando cheguei neste riacho da foto acima, resolvi parar e bater mais algumas fotos, mesmo com a lente embaçada, enquanto o Gustavo seguiu pedalando.

O tempo que parei para bater as fotos foi o suficiente para ele abrir uma boa distância, e não pude mais avista-lo...

Neste local acima, uma nova parada para fotos, e quando fui voltar a pedalar escutei um estouro...

Estourou a câmara de ar, devido um rasgo no pneu traseiro...

E aprendi mais uma lição:
- Se está ruim, não reclame! Pois pode ficar pior do que estava!!!

Um pneu rasgado no meio do nada, e não tinha nenhum pneu reserva ou algo que pudesse tentar tampar o rasgo.

Substitui a câmara de ar e ainda tentei encher o pneu, mas conforme enchia a câmara, ela saia pelo rasgo do pneu, tornando impossível pedalar daquele jeito.

Então só me restou a opção de seguir empurrando a bicicleta, até encontrar alguém que me vendesse algum pneu.


E mesmo tendo que empurrar a bike, não desanimei e continuei batendo fotos do caminho.


Outro trecho onde a Estrada do Despraiado atravessa o rio que a acompanha.


Um belo rio de águas cristalinas, pena que não pude aproveitar o mesmo.

E seguia eu empurrando a bike, em busca de algum morador que pudesse me vender um pneu.

E caminhei por aproximadamente uma hora, e depois de aproximadamente 4 km empurrando a bicicleta, encontrei um homem que consertava um Fusca na garagem de sua casa, e pude ver um quadro de bicicleta com uma só roda, pendurado na coluna do telhado ao lado do carro.

Então resolvi chamar este homem, e perguntei se ele não tinha um pneu para me vender?

Ele me respondeu que poderia vender o pneu da bicicleta da sua filha, pois ela não usa a bicicleta há muito tempo.

Ele me cobrou R$ 20,00 por um pneu usado, com a borracha começando a rachar, mas na situação em que me encontrava, pagaria até mais pelo mesmo.

O filho desse homem, que devia ter uns dez anos de idade resolveu me ajudar, enquanto eu ia retirando a roda e o pneu rasgado da minha bicicleta, ele ia desmontando a roda da bicicleta da sua irmã.

E após uns quinze minutos lá estava eu de pneu montado e pronto para seguir viagem, agradeci o homem e a sua família, pela ajuda e segui o meu caminho pelo Despraiado. Pois ainda faltavam aproximadamente 24 km até o asfalto.

Pena que não tirei nenhuma foto deles, mas com certeza quando voltar lá, vou procurá-los novamente!

E lá estava eu novamente pedalando pelo Despraiado, depois de perder 1h 30 min empurrando a bike e trocando o pneu. E depois de tudo isso, estava decido a não reclamar de mais nada!


Durante quase todo o percurso é possível apreciar belos contornos das serras que cercam o Despraiado.

Nos trechos com mais lama conseguia ver as marcar dos pneus da bike do Gustavo, que a essa altura já estava me esperando a um bom tempo, eu só não sabia aonde?


Vacas bem magras e mal cuidadas na beira da estrada, algumas sangrando e com cortes e feridas expostas, provavelmente se machucaram em algum arame farpado.

Mais uma bela visão das serras, destaque para o "Dedo de Deus".



Mais uma foto das serras, onde estão o Dedo de Deus e o Pico do Itatins.



O cansaço e a fome começavam a dar sinais, mas as belas paisagens até ali amenizavam um pouco a situação.

O que fez muita falta foi o ciclo computador, pois perdi totalmente a referência de quanto ainda faltava para chegar ao asfalto? Qual o ritmo que estava pedalando? E por isso também não tinha noção de quanto tempo ainda demoraria a chegar lá?

E como a estrada é meio deserta, desde que troquei o pneu e deixei de empurrar a bike, até uns dois quilômetros do asfalto, só encontrei quatro pessoas pelo caminho, e perguntei a todos a distância que faltava para chegar ao asfalto? R respectivamente ouvi as seguintes respostas:
- 12 km, 6 km, 4 km e 2 km...

Tirando a última resposta, todas pareceram maiores do que realmente foi, ainda mais no trecho final da Estrada, que foi um pouco monótono, devido não ter a companhia do rio ao lado da estrada, e nem a bela vista das serras ao fundo, além do cansaço e da fome que aumentavam a cada quilômetro percorrido.

Ao fundo da foto acima, já era possível ver a serra por onde passa a estrada SP 222, que liga a cidade de Iguape a BR-116.

Bairro a beira da SP 222, muito próximo ao asfalto, onde o Gustavo me aguarda a quase 3h.

Ao reencontrá-lo, descobri que os nossos amigos Sandro e Adelso tinham passado por ali, dez minutos antes da minha chegada, rumo a Iguape. Foi uma pena não ter chegado antes para encontrá-los!

Como era por volta das 13h 15 min e ainda teríamos 50 km de asfalto até Iguape, que nas minhas condições renderiam pelo menos 3h de pedal, provavelmente chegaria muito em cima do horário do ônibus para Pedro de Toledo, e ainda correria o risco de não encontrar passagem para o mesmo.

Então achamos melhor retornarmos pedalando para Pedro de Toledo, mas desta vez pelo asfalto, seguindo pelas estradas SP 222, BR 116 e SP 55.

Mas logo de início tinha uma serra, e não estava muito animado a encará-la, ainda mais que estava meio fraco.

Queria procurar algum lugar para comer, mas o Gustavo disse que não tinha nada próximo, e me deu pequeno sanduíche, uma banana e um energético que ainda tinha na sua mochila...

Além do lanche, ele tentou me animar, dizendo que não tinha muitas subidas na volta, e chegou até a diminuir a quilometragem que faltava...

Pois logo que cheguei ao asfalto e vi a subida que tínhamos pela frente, cheguei a dizer que não conseguiria subir a mesma...

  O lanche e o incentivo deram certos, e lá fomos nós subindo a serrinha rumo a BR 116...

Na subida foi possível ver a Estrada do Despraiado ao fundo.
(foto acima)

No início da subida acompanhei o Gustavo a certa distância, mas com algumas paradas para bater algumas fotos, logo ele abriu uma boa distância e seguiu no seu ritmo, não sendo mais possível vê-lo.

Quase no final da subida, encontrei uma pequena lanchonete a beira da estrada, próximo à divisa entre Iguape e Miracatu, resolvi parar e completar o lanche que já havia feito um pouco antes.

Comprei uma coxinha e uma lata de Coca-Cola bem gelada para acompanhar, e agora sim estava satisfeito e pronto para continuar a pedalada.

Não tirei foto do lugar, mas dias depois o meu amigo Marco Brandão passou por lá, e por coincidência parou no mesmo lugar e tirou umas fotos, que foram adicionadas no seu Orkut.
(fotos abaixo)

(Foto Marco Brandão - cicloturita.blogspot.com)
(Foto Marco Brandão - ciclotuita.blogspot.com)

Lanche feito segui serra a baixo, um alivio para mim!

Ponte próxima ao acesso a Rodovia Régis Bittencourt...


A BR-116 principal via de ligação dos países do Mercosul e da região Sul com o Sudeste Brasileiro.

E logo que entrei na BR-116 a situação era essa, a faixa da esquerda interditada, então todo o tráfego estava na faixa da direita, passando bem próximo ao acostamento e jogando muito spray de água e sujeira em mim, além da garoa que não dava trégua!

Bela paisagem a beira da BR-116.

Chegando a Miracatu.


Até que não estava tão longe de casa.

Quando cheguei ao Posto Fazendeiro (a esquerda da foto acima), que fica ao lado do acesso a Rodovia Padre Manoel da Nóbrega...

Resolvi atravessar a pista, para conferir se o Gustavo estava lá? Mas não o encontrei, então aproveitei para jogar água na bicicleta e nas minhas pernas, limpando a sujeira acumulada do Despraiado e dos jatos de água lançados pelos caminhões na BR.

Enfim cheguei à Rodovia Padre Manoel da Nóbrega...

E estava a 15 km de Pedro de Toledo...

Mas ainda tinha que enfrentar o acostamento que oscila de ruim a péssimo, mas foi o meu caminho na maioria das vezes, pois o fluxo de caminhões é muito intenso neste trecho, e se pedalasse no bordo da pista, correria um risco muito alto de ser atropelado!


Parada para registrar as belas serras ao lado da SP-55.

Os doze quilômetros mais longos que já pedalei!

Um pouco mais a frente, recebi uma ligação do Gustavo.
Perguntando-me se queria que ele fosse me buscar de carro?
Respondi que faltavam pouco mais de 10 km, e que fazia questão de concluir o pedal.

Cansado de enfrentar o péssimo acostamento da mão de direção, resolvi pedalar no bordo da pista contrária, assim podia visualizar os veículos que vinham no sentido contrário, e só voltava para o acostamento quando necessário.

Início da descida de serra e divisa de Miracatu com Pedro de Toledo.

Durante a descida da serra segui pela pista de rolamento, por sorte não tive a companhia de nenhum carro ou caminhão, mas acho que isso também não seria problema, pois devo ter descido a uns 60 km/h, que é a velocidade que a maioria segue nesta serra.

Depois da serra ainda restavam alguns quilômetros para chegar ao trevo principal...

De Pedro de Toledo, e já avistava alguns bairros.

E por volta das 18h chegava ao Portal da cidade, bem cansado e já no cair da noite.

Foi a conta, pois não gostaria de encarar essa rodovia com péssimo acostamento no escuro!

Mais alguns minutos cheguei à rodoviária, onde o Gustavo me aguardava limpo e de roupa trocada, dentro do carro a um bom tempo.

Ao chegar, colocamos a minha bike no rack do carro, e resolvi procurar algum lugar para tomar um banho, pois não queria entrar sujo como estava no carro do Gustavo.

Bem em frente de onde estávamos tinha uma pousada, onde consegui tomar um bom e relaxante banho e pude trocar de roupa, para assim pegarmos estrada de volta para casa após esse cansativo pedal.

Mapa do Passeio:

Visualizar Estrada do Despraiado em um mapa maior




Meus Números Finais:

Total pedalado:  92 km.
Tempo total:       10 horas 45 min (com todas paradas e problemas).
Baixas:                 1 ciclo computador, 1 pneu, 1 câmera e 1 selim.
Tombos:              Nenhum.
Custo:                  R$ 80,00 (Rateio gasolina, pneu usado, banho e lanche).

Agradecimentos:

- A Deus por ter me guiado em segurança por todo o caminho. Juro não reclamar mais dos obstáculos que possam aparecer nos próximos passeios!

- Ao Gustavo pelo convite, pelo lanche, pelo incentivo na hora em que estava de moral baixa e pela paciência em esperar o retardatário.

- E ao homem que me vendeu o pneu no meio do Despraiado e a sua família que foram muitos gentis comigo, o que me evitou empurrar a bike por mais 24 km.